Donald Trump: estratégia, desordem e a resposta de Shakespeare

Crédito: Reprodução Truth Social
Imagem publicada por Trump nas suas redes sociais: construção de figura messiânica, para críticos, é claro sinal de megalomania; para apoiadores, reafirmação de liderança forte

Edson Rodrigues de Souza

Já há meses analistas vêm tentando interpretar os movimentos de Donald Trump sob a chave da estratégia. Hoje, sandices somadas, a questão que se impõe nos Estados Unidos e em todo o mundo é mais incômoda: ainda se trata de cálculo político ou já entramos no terreno da instabilidade mental e real do ex-apresentador de reality show que representa, atualmente, a face mais perigosa da extrema direita em tempos da sociedade hiperconectada e altamente tecnicizada?

A escalada recente ajuda a entender o tom da preocupação. Em poucos dias, o presidente dos Estados Unidos intensificou a retórica militar contra o Irã, manteve silêncio estratégico sobre a devastação em Gaza, voltou a sinalizar desalinhamento com a OTAN, reacendeu a ideia de aquisição da Groenlândia e, numa guinada simbólica que alarmou aliados e críticos, publicou uma imagem gerada por inteligência artificial em que aparece como uma figura messiânica – cercado por seguidores brancos, numa estética que evocou inevitáveis leituras de supremacia racial e culto à personalidade.

O gesto ocorreu logo após críticas dirigidas ao Papa Leão XIV, ampliando o desconforto diplomático e reforçando a percepção de um comportamento errático. E olha que Leão XIV nasceu em Chicago e trata-se do primeiro Papa estadunidense em mais de dois mil anos de história dessa instituição central da igreja católica. O episódio sintetiza um padrão: a combinação de impulsividade, teatralização e ruptura deliberada de protocolos institucionais.

“Uma série de declarações desconexas, difíceis de acompanhar e às vezes profanas, coroadas pela ameaça de `uma civilização inteira vai morrer esta noite´, de apagar o Irã do mapa [...] e seu ataque alucinante ao papa `fraco em relação ao crime e péssimo para a política externa´, deixaram muitos com a impressão de um autocrata perturbado e louco de poder”, escreveu Peter Baker em artigo no The New York Times [1].

Jornalista reconhecido, Baker é um dos principais correspondentes da Casa Branca, está cobrindo sua sexta presidência e escreveu um livro sobre o primeiro mandato do presidente Trump, em parceria com Susan B. Glasser.

Esse quadro tem levado parte da imprensa e da academia a recuperar duas referências aparentemente distantes: a chamada “teoria do louco”, usada historicamente como estratégia de intimidação geopolítica, e a tradição literária e política do “rei insano”, dramatizada em Rei Lear, peça escrita pelo bardo inglês William Shakespeare por volta de 1605. A questão, cada vez mais presente, é se Trump ainda atua no primeiro registro – o da simulação calculada – ou se já se aproxima do segundo, o da loucura.

Os movimentos mais recentes de Trump não ocorreram no vazio. Eles se inserem em um contexto de tensão internacional crescente, mas com uma marca distintiva: a personalização extrema das decisões.

A retórica agressiva e continuada contra o Irã vem reascendendo temores de um conflito de grandes proporções e que tenha possibilidade de se alastrar primeiro pelo mundo árabe e depois por todo o planeta. A realidade é que o padrão discursivo do presidente estadunidense tem se tornado mais extremo, menos mediado e potencialmente desestabilizador. Sua postura em relação a Israel mostra-se como um alinhamento automático e sua ausência de posicionamento claro sobre Gaza é uma omissão pensada, estratégica.

Ou seja, um líder sem direcionamento geopolítico, dissimulado, imprevisível e capaz de atos desconexos e potencialmente perigosos.

No complexo e delicado setor das alianças, Trump voltou a questionar o papel dos Estados Unidos na OTAN, insinuando retirada ou redução de compromissos – um movimento que corrói a previsibilidade do sistema de segurança ocidental. Nesse contexto, o plano recorrente de invasão ou compra da Groenlândia, tratado anteriormente como excentricidade, reaparece agora em meio a um conjunto mais amplo de ações que desafiam normas diplomáticas consolidadas.

Mas é no campo simbólico que o desconforto se intensifica. A imagem messiânica publicada pelo presidente em uma rede social – interpretada por analistas como um gesto de autoelevação – foi lida como parte de um processo de construção de liderança carismática de contornos quase religiosos, messiânicos mesmo. Para críticos, trata-se de um claro sinal de megalomania; para apoiadores, de uma reafirmação de liderança forte.

A “teoria do louco” – Durante alguns anos, parte da comunidade internacional interpretou Donald Trump à luz da chamada “madman theory” (teoria do louco), associada a líderes como Richard Nixon (1913-1994), 37.º presidente dos Estados Unidos, de 1969 até 1974. A lógica é simples: projetar imprevisibilidade para intimidar adversários e obter vantagens estratégicas. Em junho do ano passado, quando questionado se estava planejando se juntar a Israel no ataque ao Irã, Trump respondeu: “Posso fazer isso. Posso não fazer isso. Ninguém sabe o que vou fazer”.

Sobre esse tipo de postura, o pesquisador e jornalista Allan Little, em entrevista para a BBC, disse ver um padrão: “A coisa mais previsível sobre Trump é sua imprevisibilidade. Ele muda de ideia. Ele se contradiz. Ele é inconsistente” [2]. Trump parece usar a imprevisibilidade como instrumento de negociação global e, nesse enquadramento, declarações extremas e gestos disruptivos seriam parte de um cálculo racional – ainda que arriscado.

O acúmulo recente de episódios tem levado analistas a revisar essa leitura. A diferença crucial está na consistência: enquanto a “teoria do louco” pressupõe controle sobre a própria imagem de instabilidade, críticos argumentam que o comportamento atual sugere perda desse controle.

Um ex-assessor direto de Donald Trump, John Kelly – que integrou o próprio governo desde o início, primeiro como secretário de Segurança Interna (2017) e depois como chefe de gabinete da Casa Branca (2017 a 2019) – afirmou sobre o atual presidente estadunidense, em declarações repercutidas pela imprensa internacional:

“Ele certamente prefere a abordagem ditatorial ao governo. Eu acho que ele adoraria ser como era nos negócios. Poder dizer às pessoas para fazerem as coisas e elas fariam, sem realmente se incomodar muito se elas eram legais ou não” [3].

John Kelly também já disse que, certa feita, em conversa, Trump havia revelado desejar “generais como os de Hitler”, além de ter feito comentários relativizando aspectos do regime nazista. Esse tipo de postura não é novidade. Em discursos e entrevistas diversos, o presidente dos EUA destrata líderes de várias nações do mundo, busca ridicularizar civilizações e povos, destrata mulheres e estrangeiros diversos. Esse tipo de rompimento dos limites simbólicos, conquistas de uma civilização que busca alguma harmonia mundial a partir do respeito mútuo, sinaliza uma normalização de discursos antes considerados inaceitáveis.

Diante desse cenário, voltou ao debate público a possibilidade de aplicação da 25th Amendment to the United States Constitution (a 25ª Emenda), que permite afastar o presidente em caso de incapacidade de exercer suas funções. A discussão, antes marginal, ganhou força em setores políticos e midiáticos. Segundo reportagem do Brasil 247, cresce a pressão para que se avalie formalmente a condição mental do presidente [4]. Ainda que a medida seja considerada extrema e de difícil implementação, o simples fato de ser debatida revela o nível de preocupação institucional.

Juristas ressaltam que a aplicação da emenda exige consenso significativo dentro do próprio governo – algo improvável no curto prazo. Ainda assim, o tema passou a circular como indicador de crise.

O retorno do “rei louco” – É nesse ponto que a análise política começa a dialogar com a história e a literatura. A figura do governante instável não é nova. Na história do Império Romano, são clássicos os atos desmedidos de Calígula (no poder entre 37 a.C. e 41 d.C.) e Nero (no poder de 54 a 68 d.C.). Em tempos mais recentes, um caso emblemático é o de George III, cuja condição mental afetou diretamente a governabilidade britânica no século XVIII, tendo ficado à frente do poder de 1760 a 1801. Mas há também muita discussão sobre os traços de comportamento de personagens marcantes de um período ainda mais recente, como Adolf Hitler, Benito Mussolini e Joseph Stalin.

Na cultura ocidental, essa tensão foi imortalizada em Rei Lear. Na peça shakespeariana, um monarca envelhecido, incapaz de discernimento, toma decisões que levam ao colapso do reino. A tragédia não está apenas na loucura, mas na impossibilidade de contê-la dentro das estruturas de poder.

Essas analogias que buscam paralelos e uma certa explicação na conduta de personagens históricos, reais ou inventados, devem sempre ser usadas com cautela. É preciso evitar a estigmatização de doenças mentais. O ponto central nessa análise não deve ser um diagnóstico clínico, mas a relação entre comportamento, poder e consequências institucionais.

Sobre isso, o cientista político Steven Levitsky, professor da Universidade Harvard e coautor do best-seller internacional Como as Democracias Morrem, tem defendido que o foco analítico realmente não deve recair sobre diagnósticos individuais, mas sobre a resiliência institucional. Em linha com essa abordagem, afirmou que “o problema não é a loucura em si, mas a ausência de mecanismos eficazes para lidar com decisões erráticas no topo do poder” [5], destacando que sistemas democráticos entram em risco quando não conseguem conter lideranças que tensionam continuamente seus limites normativos.

Levitsky também já afirmou que os Estados Unidos passaram a apresentar características de um “autoritarismo competitivo”. Nesse tipo de arranjo, embora o governante chegue ao poder por meio de eleições, sua atuação no cargo tende a enfraquecer práticas democráticas: há perseguição a opositores, substituição de servidores públicos por conveniência política e uso do aparato estatal para inclinar a disputa eleitoral a seu favor. Um regime híbrido, que não se configura plenamente como democracia, mas tampouco corresponde a um autoritarismo consolidado [5].

A presidência de Trump sempre foi marcada pela fusão entre política e espetáculo. O uso intensivo de redes sociais, a linguagem direta e a ruptura com protocolos tradicionais criaram uma forma de comunicação que desafia mediações institucionais. No entanto, quando esse estilo se combina com decisões de alto impacto – como políticas de guerra, alianças internacionais e estabilidade econômica – o custo potencial se eleva exponencialmente.

A imprevisibilidade pode ser até útil como tática, mas se torna perigosa quando afeta a confiança global. A história mostra que mercados, aliados e adversários operam com base em expectativas. Dessa forma, quando essas expectativas desaparecem ou se mostram dúbias, o sistema entra em tensão. Seguindo esse raciocínio, a volatilidade política no topo do poder de nações de importância e poder global, como é o caso dos EUA, pode gerar efeitos sistêmicos sobre a economia e a ordem internacional. No caso de Donald Trump e sua performance como presidente, essas consequências, já há algum tempo, são reais e atuantes.

A dificuldade central, hoje, é distinguir entre performance e realidade. Trump construiu sua trajetória política explorando essa ambiguidade – ora como estratégia, ora como identidade. Mas o acúmulo de episódios recentes sugere que essa fronteira pode estar se tornando difusa. A imagem messiânica, a retórica bélica, o isolamento diplomático e as referências históricas controversas compõem um quadro que desafia explicações simples.

Se a “teoria do louco” pressupõe controle, e a figura do “rei insano” aponta para sua perda, o momento atual parece oscilar perigosamente entre essas duas dimensões. E, como em Rei Lear, a pergunta que permanece não é apenas sobre o governante – mas sobre a capacidade das instituições de resistir a ele.

Referências usadas para esta matéria:

[1] Disponível em: https://www.nytimes.com/2026/04/13/us/politics/trump-mental-fitness-25th-amendment.html . Acesso em: 13 abr. 2026. [2] Disponível em: https://www.em.com.br/internacional/2025/07/7193764-como-trump-esta-usando-a-teoria-do-louco-para-tentar-mudar-o-mundo.html. Acesso em: 13 abr. 2026. [3] Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2024/10/23/trump-disse-querer-generais-como-os-de-hitler-e-que-nazista-fez-algumas-coisas-boas-afirma-ex-chefe-de-gabinete.ghtml. Acesso em: 14 abr. 2026. [4] Disponível em: https://www.brasil247.com/mundo/insanidade-de-trump-eleva-pressao-para-afastamento-com-base-na-25a-emenda-da-constituicao. Acesso em: 15 abr. 2026. [5] Disponível em: https://www.hks.harvard.edu/faculty-research/policy-topics/democracy-governance/democracy-2025-harvard-professors-rising. Acesso em: 15 abr. 2026.