Riqueza de bilionários só cresce e ameaça à democracia no mundo

Dinheiro dólar.
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Relatório Oxfam mostra concentração de renda em alturas nunca alcançadas, enquanto maioria esmagadora da população vive na pobreza

Edson Rodrigues de Souza

Relatório da Oxfam Internacional, lançado em janeiro, traz dados contundentes sobre a extrema velocidade da concentração de renda pelo mundo, que ano a ano alcança um novo e mais alto teto. Em 2025, segundo o levantamento, a riqueza dos bilionários, pelo mundo, cresceu três vezes mais rápido do que o aumento médio anual nos cinco anos anteriores. Esse crescimento, dentre outros fatores, está relacionado à volta de Donald Trump à Casa Branca, em novembro de 2024, iniciando uma política de defesa da desregulamentação dos ambientes econômico e empresarial, com enfraquecimento dos acordos que aumentavam a tributação das empresas, beneficiando os mais ricos em todo o mundo.

“O número de bilionários ultrapassou três mil pela primeira vez, e o nível de riqueza dos bilionários é agora mais alto do que em qualquer outro momento da história”, traz o documento. E isso acontece em um mundo em que, no outro extremo, uma em cada quatro pessoas é ameaçada pela fome, o que dá mais de 2 bilhões de indivíduos.

O cenário de concentração de renda, e por consequência de poder, nas mãos de pequenos grupos tem se mostrado perigoso para as democracias. “Por muitos anos, a Anistia Internacional alertou sobre o crescimento do autoritarismo entre e dentro dos países. Evidências do último ano mostram como esse processo está se acelerando, e rapidamente”, alerta Agnes Callamard, secretária geral da Anistia Internacional (AI).

Callamard exemplifica esse movimento com a constatação de que, já um ano após a posse de Donald Trump, lideranças ao redor do planeta passaram a priorizar investimentos militares e acordos de política externa, rejeitando a proteção de direitos humanos, direitos trabalhistas e compromissos multilaterais. Segundo a secretária geral da AI, isso vem causando “um dano perigoso às conquistas arduamente alcançadas em igualdade, justiça e dignidade nestes últimos 80 anos, em todo o mundo”.

A Oxfam Internacional, que assina o estudo, é uma confederação de 19 organizações e mais de três mil parceiros espalhados pelo planeta. Atua desde a década de 194 e atualmente se encontra em mais de 90 países, na busca por soluções para os problemas da pobreza, da desigualdade e da injustiça, por meio de campanhas, programas de desenvolvimento e ações emergenciais. Também se notabiliza por desenvolver detalhados macro-estudos a partir de dados mundiais, na busca por explicitar as desigualdades econômicas e suas consequências.

O mundo deles – A preocupação da Oxfam é legítima. Concentração de valores nas mãos de poucos vem construindo uma oligarquia dos ricos pelos mundo. E isso repercute diretamente na política. A própria Oxfam já levantou dados que mostram que, em todo o mundo, os bilionários têm quatro mil vezes (isso mesmo, quatro mil vezes) mais chance de ocupar cargos políticos do que as chamadas pessoas comuns. E quando está no poder, essa representação de abastados financeiramente costuma centrar esforços na perpetuação e agigantamento de suas vantagens e dos seus iguais, em detrimento de pautas como educação, alimentação, saúde e segurança. Em um cenário brasileiro que, dentre outros escândalos, lida agora com toda a gigante cadeia de interesses e interessados do Banco Master, com envolvimento até de juízes do Supremo Tribuna Federal (STF), essa conclusão científica parece ganhar evidência prática.  

Há estudos que demonstram que países de grande desigualdade social têm até sete vezes mais chances de sofrer erosão democrática do que países mais iguais. Um cenário preocupante, visto que o que cresce no mundo não é o ritmo de uma pretendida diminuição dos abismo sociais, mas, ao contrário, o alargamento dessas distâncias. Os dados mostram, porém, que a construção de um mundo melhor não é uma missão utópica, mas, simplesmente, uma tomada de decisão política. Em um mundo de requintada e crescente tecnicidade, impactando em vantagens várias para a humanidade nos campos das várias acessibilidades (à educação, à saúde, ao lazer…) e possível vislumbrar que uma melhor distribuição de renda elevaria todo o mundo a um outro patamar de desenvolvimento.

Os números da concentração são gigantescos e, quando analisados, beiram a bestialidade. Os 12 bilionários mais ricos do mundo têm mais riqueza do que a metade mais pobre da humanidade, ou seja, mais de quatro bilhões de pessoas. Em uma divisão simplista, cada um desses bilionários têm o equivalente à riqueza de mais de 330 milhões de pessoas: mais ou menos as populações de Brasil, Argentina e França somadas.

É impossível pensar em um mundo futuro sem que se aja imediatamente na distribuição de renda. Os mais pobres precisam entender que representam 90% da população mundial e é injusto que esse enorme contingente siga criando riqueza para os 10% da população privilegiada, sem que receba explicitas vantagens que mudem realmente sua qualidade de vida.

Como afirma Agnes Callamard: “O mundo não está se aproximando de um ponto de virada crucial: estamos dentro dele”.